Como podemos prevenir o câncer?
- Olavo Porepp
- 3 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de mar.
No início de 2024, a Organização Mundial da Saúde divulgou dados preocupantes sobre o aumento na incidência de casos de câncer, especialmente em países menos desenvolvidos. Os novos dados são alarmantes: aproximadamente 1 em cada 5 pessoas desenvolverá algum tipo de câncer durante a sua vida, e cerca de 1 em cada 9 homens e 1 em cada 12 mulheres morrerão da doença.
O principal fator de risco para desenvolver câncer é a idade, e conforme a expectativa de vida aumenta, maior o número de casos. No entanto, a idade não é o único fator contribuinte. Inclusive, o aumento de alguns tipos de câncer em pessoas com menos de 50 anos tem aumentado e gerado preocupação em relação às causas desse aumento.

Existem diversos motivos conhecidos para o aumento do número de casos, o mais óbvio é a maior facilidade de rastreio e diagnóstico de diversos tipos de câncer. Todavia, esse aumento não pode ser justificado apenas às melhores condições tecnológicas e de acesso à saúde, as causas também estão relacionadas ao estilo de vida atual, como o tabagismo, o sedentarismo, a obesidade e até mesmo a poluição do ar. Felizmente, muitos fatores de risco para o câncer são considerados modificáveis, ou seja, passíveis de mudança.

Estudos epidemiológicos da década de 1960 já demonstravam diferentes taxas de câncer entre regiões, indicando que os fatores ambientais podiam colaborar com o aparecimento da doença.
Curiosamente, migrantes que saíam de um local com baixas taxas de câncer e iam para outros onde as taxas eram maiores, acabavam por igualar ou até aumentar o seu risco em comparação com a população anfitriã. Essas observações demonstraram a existência de importantes causas ambientais de câncer, e outros estudos mostraram fortes correlações entre muitos tipos de câncer e fatores dietéticos. Por exemplo, países com maior ingestão de carne apresentaram altas taxas de câncer colorretal, sendo o terceiro câncer mais comum no mundo.

Em 2015, a International Agency for Research on Cancer (IARC) classificou a carne processada como cancerígena para os seres humanos e a carne vermelha não processada como provavelmente cancerígena, com base em um estudo relatando um aumento de 17% no risco para cada incremento diário de 50 g no consumo de carne processada, e 18% para cada incremento de 100 g no consumo de carne vermelha. Vale ressaltar que o consumo de carne vermelha não processada ainda é uma questão em aberto, outros estudos encontraram efeitos menores e outros falharam em encontrar associação entre o consumo de carne e câncer. Por outro lado, um maior consumo de leite e cálcio estão associados a uma redução moderada no risco de câncer colorretal.
Estudos prospectivos mostraram que um acréscimo de 10 g de fibra alimentar por dia está associado a uma redução média de 10% no risco de câncer colorretal.
Qual a importância da dieta como causa evitável de câncer?
Embora o câncer possa parecer uma condição inevitável e que foge do próprio controle, há diversas mudanças no estilo de vida que podem reduzir o risco. Em relação à alimentação, a American Cancer Society considera que uma dieta saudável deve:

No Brasil, há uma estimativa de que parte considerável dos casos de câncer se deve a fatores modificáveis e relacionados à dieta, sendo 4,9% para sobrepeso e obesidade, 3,8% para o consumo de álcool, 0,8% para a falta de fibra alimentar e 0,6% para a carne processada.
Por exemplo, a obesidade é um conhecido fator de risco para o adenocarcinoma de esôfago, provavelmente devido ao refluxo do conteúdo do estômago para o esôfago que o excesso de peso pode gerar.
Além disso, de acordo com a IARC, o risco de desenvolver câncer de mama aumenta de 7 a 10% a cada 10 g (∼1 dose) de álcool consumido diariamente por mulheres adultas. Essa associação é observada tanto em mulheres na pré-menopausa quanto na pós-menopausa. Comparada com outros órgãos, a mama parece ser mais suscetível aos efeitos cancerígenos do álcool.

De forma geral, foi observado que moradores de locais com alto risco de câncer têm uma dieta restrita, pobre em frutas, vegetais e produtos de origem animal, de modo que deficiências de micronutrientes têm sido postuladas para explicar o alto risco.
Embora uma quantidade considerável de estudos indicando um papel da carência de micronutrientes no desenvolvimento de alguns tipos de câncer, esses achados ainda não podem ser confirmados.

O câncer de estômago é outra forma prevalente de câncer, sendo o quinto câncer mais comum em todo o mundo, com taxas mais altas no leste da Ásia. O consumo de grandes quantidades de alimentos salgados, como peixes e vegetais conservados em sal, está associado a um risco aumentado. Isso pode ser causado pelo próprio excesso de sódio ou por substâncias carcinogênicas derivadas dos nitritos presente em muitos alimentos conservados. Alimentos salgados podem aumentar o risco de infecção por Helicobacter pylori (uma causa estabelecida de câncer de estômago) e colaborar no desenvolvimento da doença.
O risco de câncer de estômago pode ser diminuído por dietas ricas em frutas e vegetais e ingestão de vitamina C. Estudos no Japão também mostraram uma associação inversa entre o risco de câncer de estômago e o consumo de chá verde em mulheres, que pode estar relacionado aos polifenóis do chá. Esses estudos indicam um papel protetor dos micronutrientes antioxidantes ou de outros compostos antioxidantes.

Em linhas gerais, pode-se observar que a obesidade e o álcool aumentam o risco de vários tipos de câncer, e são os fatores nutricionais mais importantes que contribuem para a carga total de câncer em todo o mundo. Para o câncer colorretal, a carne processada aumenta o risco e há indícios de que a carne vermelha aumente o risco. Em contrapartida, o consumo de fibras alimentares, produtos lácteos e cálcio provavelmente reduzem o risco.
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